Feira de negócios em SP reúne 600 pessoas em busca de soluções para mudanças climáticas

A Conexão Carbono Zero: 1ª Feira de Negócios Latino-americana Pelo Clima reuniu, em São Paulo, mais de 600 pessoas nos dois dias de evento (11 e 12 de junho), voltado para soluções que visem transformar os modelos mentais, de negócios e políticos, para reverter a mudança climática e, ao mesmo tempo, gerar valor e prosperidade. A feira é uma iniciativa conjunta do Mundo Que Queremos, CDP Latin America e WWF Brasil.

As empresas representadas na Conexão Carbono Zero identificaram que trabalhar a favor do clima significa oportunidades de negócios que somam US$ 42 bilhões. Juntas, já investiram US$ 5 bilhões a favor do clima e, com isso, evitaram a emissão de 921 milhões de toneladas de carbono.

Foram dois dias de programação com palestras, painéis e rodadas de negócios realizados no Maksoud Plaza, em São Paulo, durante a Semana Mundial do Meio Ambiente. Participaram empresas, governos, investidores, formadores de opinião e representantes da sociedade civil do Brasil e outros países, como Chile, Colômbia, Argentina e Canadá.

Rodadas de Negócios

As rodadas de negócios da feira foram organizadas em parceria com a Climate Ventures, plataforma de inovação que apoia ideias e empresas que atuam em prol do clima. Foram marcadas reuniões, em horários pré-definidos, para colocar frente a frente startups que oferecem serviços de sustentabilidade com empresas e governos que tem interesse em conhecer os projetos e fechar negócios.

Dany Silvio Amaral, da Secretaria de Meio Ambiente da Prefeitura de Belo Horizonte, foi um dos representantes do setor público que encontraram na feira a oportunidade de conhecer projetos de impacto ambiental positivo. Ele buscou alguma iniciativa que pudesse ajudar a capital mineira a resolver o problema de destinação de resíduos sólidos e encontrou um aplicativo desenvolvido pela startup Polen que pode ser a solução para o gargalo.

“Foi interessante como a feira veio ao encontro de necessidades que percebemos no município. Temos um problema muito grave de logística reversa de vidros em Belo Horizonte e a Polen tem esse aplicativo que faz a conexão entre as empresas que produzem garrafas de vidro e as cooperativas de catadores, o que ajuda nesse processo de logística. O que para a gente parecia ser um problema sem solução, conseguimos ter uma luz. É um caminho novo, uma perspectiva para desenvolvermos políticas públicas no nosso município e reduzir esses impactos”, explica.

A Polen é uma startup carioca que, através de plataforma própria conecta empresas que geram resíduos com empresas que usam estes resíduos como matéria-prima. Assim, transforma o custo de destinação em receita e os resíduos em matéria-prima de origem sustentável e de baixo custo.

Para o prefeito de Independencia, na região metropolitana de Santiago (Chile), Gonzalo Durán, além da oportunidade de conhecer projetos, a Conexão Carbono Zero foi importante porque possibilitou o encontro com líderes de outras cidades latino-americanas para troca de experiências. “É muito bom que existam espaços de cooperação como este. O ambiente de reflexão, de negócios e de intercâmbio entre cidades se configura como uma excelente oportunidade para enfrentar os desafios das mudanças climáticas”, avaliou.

Independencia trouxe à feira sua atuação frente aos desafios do clima. O município realizou recentemente, conforme informou o prefeito, uma compra de veículos elétricos. Quando estiver em operação, a cidade será a primeira do Chile a contar com uma frota 100% elétrica.

Palestras

A feira de negócios contou com uma programação especial de palestras sobre mudanças climáticas. Na abertura, a consultora e escritora canadense Lorraine Smith fez uma palestra motivacional sobre a chamada “nova economia”, que leva em conta fatores climáticos, causados pelas emissões de carbono na atmosfera, na tomada de decisões que visem o desenvolvimento econômico e social dos países. Ela defendeu que, não só as nações parem de promover o desmatamento, mas também atuem em conjunto para reverter os impactos negativos já causados.

Os efeitos resultantes de um modelo de desenvolvimento econômico que desconsidere ações de preservação do meio ambiente, para Lorraine, são preocupantes. Mais de 60% da biodiversidade global já foi perdida em razão deste modelo. A consultora do Canadá afirmou que até mesmo o termo usado para tratar do clima deva ser outro a partir do ano que vem. Em 1990, o mundo falava em “efeito estufa” e, em 2000, veio à tona o “aquecimento global”. Em 2019, os termos usados são “mudanças climáticas”, mas ela acredita que, a partir de 2020, em função da urgência de implementação de ações, o correto seja dizer “emergência climática”.

O embaixador do Canadá no Brasil, Riccardo Savone, também participou do primeiro dia da feira e apresentou dados da Comissão Global de Economia e Clima, que apontam que, até 2030, a economia limpa deve movimentar US$ 26 trilhões e irá gerar cerca de 65 milhões de empregos.

Ele lembrou que neste mês de junho, o Governo do Canadá anunciou que irá banir o plástico de uso único até 2021. Para Savone, ações como esta fazem diferença. Também defendeu que os cidadãos, as empresas e os governos sejam parceiros e trabalhem juntos para resolver os problemas climáticos que são urgentes.

“Sempre falamos do futuro, do que vai acontecer em 10 anos, 20 anos, mas, na verdade, como vemos hoje aqui, os desafios estão chegando agora. Não temos mais tempo para pensar o que fazer, temos as soluções e precisamos ter ações. É uma urgência global. O tempo de ação é agora”, endossou.

Painéis

A Carbono Zero ainda foi palco de debates significativos sobre o clima. No painel “Clima bom para negócios” foram apresentadas ideias de tecnologias que já estão em funcionamento no mundo. Entre as iniciativas está a utilização de placas fotovoltaicas na construção civil pela MRV, maior construtora da América Latina. Segundo a representante da empresa, Thais Morais, desde 2017, foram reduzidos mais de 1 milhão de quilowatts por meio da captação de energia solar (renovável) nos empreendimentos. Além do meio ambiente, ao todo, 4.500 famílias foram beneficiadas. O objetivo é que, até 2022, 100% dos empreendimentos da empresa tenham a tecnologia aplicada.

No painel “Carbono, um Indicador de Produtividade” as discussões foram sobre tendências e oportunidades na transição para uma nova economia em que o carbono se torne um indicador cada vez mais determinante de desempenho para organizações, estados, cidades e países.

O diretor do Instituto Escolhas, Sérgio Leitão, um dos participantes do painel, falou sobre como o Brasil ainda se comporta timidamente diante da oportunidade de implementar ações onde o carbono seja protagonista, na transição para uma economia nova, que leve em conta as urgentes mudanças climáticas. “Não há barulho que faça acordar quem finge estar dormindo”, afirmou.

Já o painel “Investimento privado em infraestrutura verde” tratou dos investimentos do setor privado em infraestrutura verde e resiliente nas cidades e os principais obstáculos a serem superados e oportunidades na América Latina. A consultora da Resultante, Maria Eugênia Buosi, informou que 26% dos investimentos que são feitos no mundo, de alguma forma, já tem o filtro para questões ambientais. Para ela, o fato de 1/4 do mundo financeiro já ter voltado os olhos para o investimento de impacto ambiental exige esforço conjunto de empresas e governos para viabilizar projetos em prol do meio ambiente.

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